Fundamentos
Variáveis quantitativas e categóricas: qual é a diferença?
Variáveis quantitativas contam ou medem; as categóricas classificam em grupos. Entenda discretas, contínuas, nominais e ordinais, com exemplos e testes rápidos.
Gabriel Olegário · · 10 min de leitura
A coleta terminou. Você exporta o questionário para uma planilha, abre o arquivo pela primeira vez e lá estão as colunas: idade, sexo, escolaridade, número de filhos, pressão arterial e uma pergunta de satisfação com o atendimento, respondida de 1 a 5. Antes de calcular qualquer coisa, aparece uma dúvida que parece pequena demais para travar alguém, mas trava muita gente: que tipo de variável é cada uma dessas?
Se você já se perguntou se dá para tirar a média da escolaridade, ou se aquela nota de 1 a 5 é um número "de verdade", saiba que essa é uma das dúvidas mais comuns de quem está começando a pesquisar. E faz sentido que seja: a estatística costuma ser apresentada pelos testes, e não pelo passo que vem antes deles, que é olhar para os dados e entender o que cada coluna representa.
A resposta curta é esta. Uma variável quantitativa expressa uma quantidade que pode ser contada ou medida, como o número de filhos ou o peso. Uma variável categórica classifica cada observação em um grupo, como o estado civil ou o tipo sanguíneo1,2. Saber de que tipo é cada variável é o primeiro passo de qualquer análise: é isso que define como descrever os dados, que gráfico usar e quais métodos fazem sentido depois.
Ao longo do texto, a gente passa pelos quatro tipos de variável, com exemplos da área da saúde, por dois testes rápidos para classificar qualquer coluna da sua planilha e pelas armadilhas mais frequentes. No final, voltamos àquela planilha do começo.
O que é uma variável quantitativa
Uma variável quantitativa, também chamada de numérica, registra quanto de uma característica cada participante tem. O número carrega significado de quantidade: 4 filhos são o dobro de 2, e a diferença entre 70 kg e 75 kg é de 5 kg. Ela se divide em dois tipos, discreta e contínua1.
Quantitativa discreta: o que se conta
A variável discreta assume valores inteiros, porque resulta de uma contagem: 0, 1, 2, 3 e assim por diante1. Não existe uma família com 2,5 filhos.
Exemplos em pesquisa em saúde:
- número de filhos;
- número de consultas no último ano;
- número de internações;
- número de lesões em um exame dermatológico.
Quantitativa contínua: o que se mede
A variável contínua resulta de uma medida e pode assumir qualquer valor dentro de um intervalo1, com o limite dado pela precisão do instrumento. Entre 1,70 m e 1,71 m de altura existem infinitas alturas possíveis.
Exemplos:
- peso e altura;
- pressão arterial;
- glicemia de jejum;
- tempo até a alta hospitalar.
O que é uma variável categórica
Uma variável categórica, também chamada de qualitativa, organiza as observações em grupos ou tipos. Ela responde "a qual categoria esta pessoa pertence?", e não "quanto?". Também se divide em dois tipos, nominal e ordinal2.
Categórica nominal: categorias sem ordem
Na variável nominal, as categorias são nomes diferentes, sem uma ordem natural entre elas2. Não faz sentido dizer que "casado" está acima ou abaixo de "solteiro".
Exemplos:
- estado civil;
- tipo sanguíneo;
- cor dos olhos;
- tabagismo registrado como "fuma" ou "não fuma".
Quando a variável tem só duas categorias, como sim ou não, ela é chamada de dicotômica ou binária. É dessa variável que saem as proporções da epidemiologia, como a prevalência de uma condição. Continua sendo categórica.
Categórica ordinal: categorias com ordem
Na variável ordinal, as categorias seguem uma sequência lógica2. Escolaridade é o exemplo clássico: ensino fundamental, médio, superior e pós-graduação têm uma ordem clara.
Exemplos:
- escolaridade;
- intensidade da dor (leve, moderada, intensa);
- estadiamento de uma doença;
- respostas em escala de concordância, de "discordo totalmente" a "concordo totalmente".
Variável
Quantitativaexpressa uma quantidade
Discreta
se conta, em números inteiros
Ex.: número de filhos, consultas no ano
Contínua
se mede, aceita valores intermediários
Ex.: peso, altura, pressão arterial
Categóricaclassifica em grupos
Nominal
categorias sem ordem
Ex.: estado civil, tipo sanguíneo, cor dos olhos
Ordinal
categorias com ordem natural
Ex.: escolaridade, intensidade da dor
Essa classificação vem da teoria das escalas de medida, que descreveu quatro níveis: nominal, ordinal, intervalar e de razão3. Os níveis intervalar e de razão correspondem às variáveis quantitativas, e cada nível admite operações e estatísticas diferentes1,3.
Ordinal não é quantitativa, mesmo tendo ordem
O ponto que mais confunde é a variável ordinal. Ela tem ordem, como uma quantitativa, mas a distância entre uma categoria e a seguinte não é mensurável4. Não dá para afirmar que o salto entre "ensino médio" e "superior" é do mesmo tamanho que o salto entre "fundamental" e "médio".
Ordinal: escolaridade
- Fundamental?
- Médio?
- Superior?
- Pós-graduação
Há uma ordem, mas a “distância” entre um nível e o seguinte não é medida nem igual.
Quantitativa discreta: número de filhos
- 0+1
- 1+1
- 2+1
- 3+1
- 4
Cada passo vale exatamente uma unidade: dá para somar, subtrair e calcular média.
É por isso que as escalas de concordância do tipo Likert geram um debate antigo: as respostas costumam virar números de 1 a 5, mas continuam sendo dados ordinais. Por esse motivo, muitos autores recomendam usar a mediana, e não a média, como medida central dessas respostas4.
Armadilhas comuns
Número nem sempre é quantitativa
Em muitos bancos de dados, as categorias são guardadas como números: 1 para solteiro, 2 para casado, 3 para divorciado. Isso é só um código. A variável continua nominal, e calcular a "média do estado civil" produz um número sem significado. O mesmo vale para CEP, número de prontuário e código de município. Aplique o teste da subtração: se a diferença entre dois códigos não quer dizer nada, a variável não é quantitativa2.
Transformar uma medida em faixas tem custo
Idade é uma variável quantitativa contínua, ainda que costume ser registrada em anos completos. Quando ela é agrupada em faixas etárias, como 18 a 39, 40 a 59 e 60 anos ou mais, passa a ser uma variável ordinal. Isso pode ajudar na apresentação dos dados, mas tem um preço: perde-se informação. Mesmo a forma mais comum de agrupar, dividir a variável em dois grupos, raramente se justifica na análise e com frequência leva a resultados enganosos5. Sempre que possível, colete e analise a medida original.
O tipo depende de como a variável foi registrada
A mesma característica pode gerar variáveis de tipos diferentes. Tabagismo registrado como "sim" ou "não" é categórico; registrado como número de cigarros por dia, é quantitativo discreto. Decidir essa forma de registro antes da coleta faz parte do planejamento do estudo.
Por que o tipo de variável importa na análise
O tipo de variável define como resumir os dados e como mostrá-los. Variáveis quantitativas costumam ser resumidas por medidas como média ou mediana; as categóricas, por contagens e percentuais em tabelas de frequência2. Nos gráficos, a lógica é parecida: gráficos de barras foram pensados para variáveis categóricas, enquanto dados contínuos ficam mais bem representados por histogramas, boxplots ou gráficos de pontos, que mostram a distribuição em vez de resumir tudo em uma média6.
Categórica: estado civil
Quantitativa contínua: altura (cm)
| Tipo | Exemplo | Como resumir | Gráfico indicado |
|---|---|---|---|
| Quantitativa contínua | Pressão arterial | Média e desvio padrão, ou mediana e intervalo interquartil | Histograma, boxplot |
| Quantitativa discreta | Número de consultas | Média e desvio padrão, ou mediana e intervalo interquartil | Histograma ou barras por valor |
| Categórica nominal | Tipo sanguíneo | Frequência (n) e percentual | Barras separadas |
| Categórica ordinal | Intensidade da dor | Frequência (n), percentual e mediana | Barras na ordem das categorias |
Os métodos de análise seguem o mesmo raciocínio: comparar médias entre grupos, por exemplo, só faz sentido para variáveis quantitativas. A mesma pergunta reaparece inteira quando você vai modelar, porque é o tipo do desfecho que decide qual regressão usar: linear para um número contínuo, logística para um desfecho sim ou não. Antes de qualquer teste, classificar corretamente as variáveis é o que garante que o resumo e o gráfico digam algo verdadeiro sobre os dados.
De volta à planilha
Agora dá para classificar cada coluna daquela planilha do começo:
- idade e pressão arterial: quantitativas contínuas, porque se medem;
- número de filhos: quantitativa discreta, porque se conta;
- sexo: categórica nominal, e dicotômica se tiver só duas categorias;
- escolaridade: categórica ordinal, porque os níveis têm ordem;
- satisfação de 1 a 5: categórica ordinal. Os números indicam uma ordem, não uma quantidade, então a mediana descreve melhor essas respostas do que a média4.
Com essa classificação em mãos, você já sabe como resumir cada coluna, que gráfico usar e que tipo de pergunta cada variável consegue responder.
Como aplicar no seu projeto
Antes de coletar os dados, monte uma lista com todas as variáveis do estudo e anote, para cada uma:
- o tipo (discreta, contínua, nominal ou ordinal);
- a unidade de medida ou as categorias possíveis;
- como ela será registrada no banco de dados.
Essa lista é o começo do seu dicionário de dados e evita boa parte das dúvidas que aparecem na hora da análise. Se os dados já foram coletados, tudo bem: classificar as variáveis agora continua sendo o melhor ponto de partida. E se quiser aprender estatística desde a base, o curso Simplificando a Estatística está com a lista de espera aberta.
Perguntas frequentes
Idade é variável quantitativa ou categórica?
Idade é uma variável quantitativa contínua, mesmo quando registrada em anos completos. Ela só se torna categórica (ordinal) quando é agrupada em faixas etárias, o que descarta informação e deve ser evitado na análise sempre que possível5.
Uma variável de sim ou não é categórica?
Sim. Uma variável com apenas duas categorias, como "fuma" e "não fuma", é categórica nominal e recebe o nome de dicotômica ou binária. Mesmo codificada como 0 e 1, ela continua sendo categórica.
Escala Likert é variável ordinal ou quantitativa?
As respostas de uma escala Likert são ordinais: têm ordem, mas a distância entre "concordo" e "concordo totalmente" não é mensurável. Por isso, muitos autores recomendam resumi-las pela mediana, e não pela média4.
Se a variável está codificada com números, ela é quantitativa?
Não necessariamente. Códigos como 1 para solteiro e 2 para casado continuam representando categorias. Se a subtração entre dois valores não tem significado, a variável não é quantitativa2.
Qual gráfico usar para cada tipo de variável?
Para variáveis categóricas, use gráficos de barras, com as barras separadas. Para variáveis quantitativas contínuas, prefira histogramas, boxplots ou gráficos de pontos, que mostram a distribuição dos dados6.
Referências
- Ali Z, Bhaskar SB. Basic statistical tools in research and data analysis. Indian J Anaesth. 2016;60(9):662-9. doi:10.4103/0019-5049.190623.
- Kaliyadan F, Kulkarni V. Types of variables, descriptive statistics, and sample size. Indian Dermatol Online J. 2019;10(1):82-6. doi:10.4103/idoj.IDOJ_468_18.
- Stevens SS. On the theory of scales of measurement. Science. 1946;103(2684):677-80. doi:10.1126/science.103.2684.677.
- Sullivan GM, Artino AR Jr. Analyzing and interpreting data from Likert-type scales. J Grad Med Educ. 2013;5(4):541-2. doi:10.4300/JGME-5-4-18.
- MacCallum RC, Zhang S, Preacher KJ, Rucker DD. On the practice of dichotomization of quantitative variables. Psychol Methods. 2002;7(1):19-40. doi:10.1037/1082-989X.7.1.19.
- Weissgerber TL, Milic NM, Winham SJ, Garovic VD. Beyond bar and line graphs: time for a new data presentation paradigm. PLoS Biol. 2015;13(4):e1002128. doi:10.1371/journal.pbio.1002128.